Uma reflexão no dia mundial do livro: a criação da Biblioteca Nacional Digital e do Instituto Machado de Assis
*Antônio Campos
O Brasil precisa entrar na Era Digital. E ter uma biblioteca nacional digital é primordial. Desde 2008, existe a biblioteca digital européia, denominada Europeana, atualmente com mais de 20 milhões de itens de 20 mil organizações da União Europeia. Agora, é a vez dos americanos também digitalizarem o seu acervo literário. Recentemente, inauguraram a Biblioteca Pública Digital da América, com um acervo de 2,4 milhões de itens, disponíveis gratuitamente para internautas de todo mundo através do site www.dp.la. O projeto foi criado sob a liderança da Universidade Harvard. E a tendência é que mais e mais obras, documentos e arquivos sejam digitalizados. O Google Book Search, por exemplo, é um ambicioso projeto da Google, cujo objetivo é digitalizar todos os livros do mundo. Até agora, mais de 30 milhões de obras já estão digitalizadas na plataforma.
O acervo digital precisa ser visto, também, como uma forma de conservar as obras literárias, algumas quase já extintas fisicamente. Robert Darnton, que esteve presente na Fliporto 2012, é um dos idealizadores do projeto de Harvard e, paralelo a isso, é o diretor da biblioteca, física, de Harvard. São plataformas que se integram, atendendo, assim, a vários públicos e demandas. Facilitar o acesso ao conteúdo existente deve ser, portanto, o objetivo maior da criação de uma biblioteca nacional digital no nosso país. Apenas o material disponibilizado no Domínio Público, biblioteca digital desenvolvida pelo Ministério da Educação, não é suficiente.
É preciso transpor os limites da burocracia, da limitação editorial, para que possamos, enfim, contar com uma grandiosa biblioteca digital nacional. Respeitar a questão dos direitos autorais dos livros, levando-a para discussões com escritores e editores é, portanto, imprescindível para o sucesso desta ideia. Para os autores, é uma excelente oportunidade de prolongar a vida das suas obras, além de ampliar o seu público, visto que a obra passa a ficar disponível para leitores do mundo inteiro.
Atualmente, contamos apenas com pequenos nichos digitais, como a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo, que desenvolveu um sistema para implantação e gerenciamento de bibliotecas digitais. São 3 mil livros digitalizados, e a meta é digitalizar mais 30 mil exemplares. Certamente, um importante passo para o futuro, mas que precisa ser somado a esforços públicos e privados para que se tornem uma grande realidade.
Em concordância com a biblioteca digital nacional, o Brasil precisa, também, concretizar a criação de um Instituto Machado de Assis. Assim como existe o Instituto Cervantes, que promove a cultura espanhola em diversos países, ensinando o espanhol e demais costumes do país, como as danças, nós precisamos de um Instituto legítimo que, carregando o nome de um grande escritor brasileiro, possa tornar-se uma referência em diplomacia cultural e, ainda, valorizar a língua portuguesa.
Dessa maneira, com uma biblioteca digital nacional e um Instituto que represente a nossa cultura no mundo todo, entraríamos, de uma vez por todas, na Era Digital e no mundo globalizado. Se compartilhar é a palavra da vez, precisamos aprender o seu real significado e, assim, aumentar, drasticamente, a existência de acervos digitais no Brasil, assim como a necessidade de dividir a nossa cultura com o restante do mundo, seja através da própria biblioteca, de maneira virtual, ou fisicamente, pelo Instituto Machado de Assis.
*Antônio Campos é advogado, Conselheiro Federal da OAB, escritor, editor, membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto.
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